Pure Bug Beauty

May I be excused? My brain is full.

Arquivo para Setembro, 2003

Releitura da solidão das pessoas nessas capitais

Ingrata espera que o dilacera.
De mãos atadas, implode em ruínas
de palidez morna, pela escotilha, fitando o veleiro.

É vivo o teu sangue, socorre anemia
e de claustrofobia agoniza o teu gozo,
sabendo do poço e do trono que vaga no dia em que parte.

Cansado e ferido, deitou ao relento.
Lembrou-se que é pó e ao pó voltará
e, pra se adiantar, mais um gole, conhaque e costela de porco.

E teve virtudes que foram esquecidas
com o pó que cheirou e o cantil que secou.
E então, novamente, sem teto e sem dentes, Ausência se vai.

Sincero é o olho do cão que vadia,
pleiteando o almoço: um osso ou carcaça
d’algum bicho fraco que espalhou carbono no preto do asfalto.

Anda, expande teu ser, primavera
que corre e esperneia, que encerra
e vagueia por dentro da mente de alguém que morria.

Sinais de melhora, neon verde-oliva.
Tremulam eletrônicos, pulsos vitais.
Reage o enfermo, impulsiona essa força que Ausência já vem.

Trazendo consigo um bálsamo azul,
tocou-lhe a fronte, vestiu-lhe de renda.
Mas pobre diabo, não tinha preparo, morreu engasgado com bala de menta.

Amargo aperto, relendo mensagens,
sentindo o passado, chorou esta tarde
- solidão e luz artificial não fazem bem a um ser humano.

meia noite e doze

Quando eu era bebê, o peito da minha mãe e fraldas limpas eram a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 4 anos, estar em cima dos ombros do meu pai era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 7 anos, giz de cera e papel branco eram a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 9 anos, um vídeo-game era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 12 anos, ter 50 cm a mais de altura era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 15 anos, passar no vestibular era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 17 anos, o sorriso de uma menina era solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 20 anos, um bom emprego era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 21 anos, fazer novos amigos e me conheçer de verdade era a solução de todos os meus problemas.
Quando eu tinha 22 anos, um pouco mais de dinheiro era a solução de todos os meus problemas.

Algumas dessas coisas aconteceram quando foram necessárias, trazendo satisfação momentânea.
Outras quando já não eram tão urgentes, provando que nem eram, de fato, tão essenciais.
E outras nem aconteceram, o que me faz pensar que atrás dessa “objetividade” tem um cara que ainda não sabe ao certo o que quer (talvez apenas o que não quer).

Coitado do Sr. Alfredo, parece que acreditou na mentira que seu pai contou.
Estudou, ralou pra caramba, conseguiu um emprego legal, casou, já tem três filhos e um cachorro e acha a vida cinzenta.

a vida é cinzenta para quem tem os olhos embotados de cimento e lágrimas e, com medo de tropeçar no ar, fica sentado no trono do apartamento com a boca escancarada e cheia de dentes esperando a declaração do imposto de renda chegar…